sábado, setembro 16, 2006

Crítica do filme "Sob o Efeito da Água" (Little Fish)

Sob o Efeito da Água (Little Fish) atraiu elogios da crítica e alguma bilheteria, superior àquela que o cinema australiano normalmente atrai. Longe da perfeição, o filme é, do ponto de vista humano, rico, e trata com sensibilidade um assunto ora perverso, ora controverso, como a questão das drogas e do vício. Escrito por Jacquelin Perske e dirigido por Rowan Woods, ele traça um corte transversal na vida de Tracy Heart (Cate Blanchet), 32 anos, classe média remediada, ex-viciada em heroína, moradora de um bairro suburbano de Sydney chamado Cabramatta, porém mais conhecido pelo apelido de ‘Little Saigon’, por causa de sua alta concentração populacional de imigrantes vietnamitas.
Woods, evidentemente, não é o primeiro (antes, o enésimo!) a focalizar a marginalidade das periferias urbanas, o abuso das drogas pesadas e sua respectiva - e brutal - subcultura. Mas a sua abordagem denota uma empatia maior do que a costumeira, ao dissecar e dramatizar os fatores subjacentes da toxicomania e, ao contrário de tantos outros cineastas contemporâneos, evitar o sensacionalismo.
Tracy mora com a mãe Janelle (Noni Hazelhurst) e é gerente de uma videolocadora, muito freqüentada pela colônia vietnamita. Ela entende e arranha direitinho o idioma oriental, tendo namorado Jonny (Dustin Nguyen), também chincheiro, que acaba de regressar a Sydney após 4 anos no Canadá, aonde a família o despachou para livrá-lo do vício e arrumar-lhe um emprego decente. (No roteiro original, o local era Hong Kong, mas como o ator Nguyen tem certo sotaque americano, o lugar foi trocado por Vancouver, dando a entender que o acento foi adquirido no Canadá).
Tracy tenta fechar ‘papagaios’ bancários para se tornar sócia no seu negócio, expandi-lo e montar uma rede de LAN houses. Ela já não se pica há 4 anos, graças à ajuda da mãe e dos amigos que a mantêm afastada das ampolas e das más companhias de antanho. Mas as pressões sociais e econômicas, sempre presentes, parecem estar fechando de novo o cerco. À revelia da mãe, ela ainda se dá com Lionel Dawson (Hugo Weaving), o antigo namorado de Janelle, e a pessoa que a introduziu às drogas pesadas. Mas Dawson, um ex-craque do futebol (não o soccer), não se livrou do mau hábito. E sexualmente está envolvido com um barão do contrabando local de drogas (Sam Neill), que é quem lhe fornece a heroína. Jonny, juntamente com Ray (Martin Henderson), o irmão deficiente de Tracy, e mais um usuário de drogas, quer montar um verdadeiro negócio de ‘peixinho’ (para refratar o título original, que é ‘Little fish’) no mar de tubarões que é o tráfico de drogas. As personagens vêm do mundo de perdedores que sonham com uma tacada milionária de traficantes – peixinhos sob o efeito da ‘água’... Como a protagonista que jamais se livra de sua folha corrida criminal e currículo de má pagadora, Blanchet se sai, como de hábito, cheia de energia e sinceridade, mas é Weaving quem se destaca, ao captar a amargura e autopiedade trágicas de seu footballer. Antes rico, saudável, famoso, ele é agora o farrapo humano que vive num apartamento fétido, obrigado a vender antigos troféus para alimentar o hábito do pico.
Woods dá à vida suburbana um tom de misterio e enigmá, o que reforça com uma técnica cheia de planos inclinados e a câmera na mão. O estilo é discutível e acaba por se sobrepor ao enredo, abafando-o sem desenvolvê-lo mais a fundo. Sem querer revelar o desfecho de Sob o Efeito da Água, pode-se perguntar, p.ex.: que fim levou o corpo da vítima que é assassinada na seqüência final? Faltou também melhor construção dramática. Se Weaving se destaca, é porque sua personagem é a mais complexa. O filme conclui num tom vagamente otimista, com o trio nadando na praia ao amanhecer, enquanto Tracy mergulha – sob o efeito deágua – em uma espécie de puerilidade inocente. Esse final tanto ou quanto simplista passa ao largo da futura barra pesada que o trio haverá de enfrentar. Alguns cientistas crêem que haja pessoas que nascem sob uma influência biológica que as induz ao vício da droga e a um conseqüente comportamento criminoso. Isso significaria que essas pessoas são obrigadas a se tornar e permanecer viciadas e criminosas? Digamos que a biologia influencie, talvez, mas não justifica automaticamente as possíveis conseqüências de todo e qualquer comportamento. Ela também não elimina a nossa responsabilidade pessoal, vontade, consciência ou capacidade de escolhermos controlar ou sermos controlados por nossa fraqueza. É difícil, para um viciado em drogas, libertar-se da opressão, mas não impossível. O tratamento dado à questão das drogas por sociedades como a canadense e, ao que se depreende deste filme, a australiana, é no sentido de que o enfoque social evite reprimir. Mas só conhecendo algo dos sofrimentos e desesperança destes indivíduos é que poderemos entender melhor o que se passa no seu interior. Quem quer que tenha tido contato próximo com algum usuário de droga pesada não pode acreditar na falácia da ‘liberdade de escolha’. Eles são verdadeiros escravos das drogas, dos vendedores e traficantes, e não cidadãos capazes de tomar decisões conscientes.
Alguns críticos australianos saudaram em Sob o Efeito da Água um verdadeiro ‘renascimento do cinema australiano’. Trata-se possivelmente de um exagero ou de wishful thinking motivado pelo fato de, um ano antes, o país ter produzido 12 longametragens que faturaram apenas, nas bilheterias, menos de 12 milhões de dólares (americanos, não australianos!), ou seja, o pior resultado do cinema australiano desde 1978.

JOSÉ GUILHERME CORREA

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