terça-feira, janeiro 09, 2007

Para 'Épater' a zé-lite anti-burguesa, nada como um pitó de $1.762.500 dólares

Levado por uma tese do crítico de arte Souren Melikian, do International Herald Tribune, somada às (e)lucida(tiva)s crônicas de Affonso Romano de Santana e à troca de idéias com o pintor Mello Menezes, cheguei à premissa, ao corolário e às conseqüentes conclusões abaixo:

1) Chamar atenção – eis uma das máximas do pós-modernismo, valendo tanto para artistas como Andy Warhol como para marchands de tableaux.
2) Os árbitros de estética, as galerias, as casas leiloeiras e, naturalmente , o establishment da crítica institucionalizada controlam e ‘legislam’ sobre esta verdadeira instituição, que vem a ser a “Arte Contemporânea''.

Não faz muito tempo que a ‘extraordinária importância’ (sic) de Marcel Duchamp no cenário retrospectivo das belas-artes durante o novecentos se viu exaltada em prosa, se não em verso, pela casa Sotheby’s, que leiloou há alguns anos um exemplar do artefato de toalete publico comumente denominado (no francês do Colégio Sion) urinoir (urinol) ; nas camadas menos sofisticadas da sociedade francófona, pissoir ; e, na linguagem de minha bisavó, do Rio do oitocentos, um pitó.

Mas o urinol da Sotheby’s era ALGO MAIS do que um mero pitó. Ele continha a grife ''R. Mutt” e a data 1917, pintadas em preto sobre a fímbria em porcelana branca brilhante da peça em apreço. O nome R. Mutt, conforme os leiloeiros da Sotheby's explicaram, escondia a identidade de Duchamp.
Foi em Nova York, em 1917, que o famoso pintor surrealista francês comprou um urinol, em uma loja de materiais de construção (a J. L. Mott Iron Works Company) e, na ocasião, forjou um nick pessoal, uma espécie de referência-trocadilho ao personagem das histórias em quadrinhos ''Mutt e Jeff.'' E Duchamp ‘assinou’ o urinol com tal pseudônimo.
Sua intenção original era expô-lo no salão inaugural da Society of Independent Artists. Mas não foi o que aconteceu. Os americanos daquela época pareciam ver num pitó... nada além de um pitó. E Duchamp acabou demitindo-se daquela guilda.
Nos 50 anos que se seguiram, porém, e para dizer o mínimo, ele deu o troco, ou se vingou. Aos 77 anos de idade, em 1964, Duchamp produziria uma edição de oito múltiplos derivados de seu famoso urinol ‘Mutt’, fabricados sob sua própria supervisão e lançados pela Galeria Schwarz, de Milão.
Tal “Art Pissotière” (expressão cunhada pelo próprio Souren Melikian) tornara-se, pois, coisa séria para a Sotheby's e para a comunidade artística. teve lugar, dois dias antes do leilão, um simpósio de especialistas sobre a matéria, incluindo historiadores da arte. O painel concluiu que a influência de Duchamp havia sido enorme. A maior de todas as influências em todo o século XX, para sermos exatos.
A Sotheby's contava faturar US $1 milhão com a versão 1964 do pitó de 1917. conservadora estimativa: o artefato saiu pela bagatela de US$1,6 milhões. US$1,762,500, para sermos mais exatos, somando a comissão dos leiloeiros, tudo pago pelo telefone por um comprador identificado apenas como ''L081.''
Ah, como Duchamp teria adorado esse nick !
O surrealismo continua, pois, prosperando e faturando.
Deixou sua marca no abstracionismo americano. Haja vista os quadros pintados e assinados, mas não intitulados, por Mark Rothko em 1952: simples faixas de cores vivas sobre fundo igualmente vibrante, suficientemente destituídas de significância para atender aos padrões surrealistas. Terá Rothko imaginado que, um dia, mesmo descontando a inflação, cada um daqueles quadros atingiria a cifra de US$ $11 milhões num leilão de arte?
O denominador comum das formas mais aceitas de arte contemporânea parece ser, portanto, a paródia simplificada.
Chuck Close, p.ex., pinta imitando uma técnica fotográfica (círculos concêntricos de pontos coloridos), que, por sua vez, imita a técnica da pintura francesa pontilhista de Seurat, Signac e Cross. Um quadro de Close (''Cindy II'') foi arremetado por US$1,212,500. Um escultor australiano de sucesso internacional leva o hiperrealismo ainda mais longe ao reproduzir em escala aumentada até mesmo os menores poros da pele de seus modelos humanos. A revista Veja publicou recentemente uma reportagem sobre os ‘art toys’, falsos brinquedos de alto luxo destinados ao público adulto de colecionadores de arte.
A componente essencial do legado surrealista parece ser, portanto, o humor, e especificamente o humor original da ‘piada’ de Duchamp. En épatant le bourgeois, Duchamp inspirou, de um lado, a verve de um Man Ray, de outro a revolta desdenhosa de um Picasso, comunista militante. Os 3 partiriam para formular a nova arte que se destinava a acabar com a velha arte do ocidente.
Hoje, o surrealismo estimula gente de talento bem inferior ao de Ray, Picasso & Cia e de vocação bem superior para querer transformar uma piada no que uma piada jamais deveria ser – um dogma estético.

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